Corumbá: cresce ocorrência de animais silvestres na área urbana


Onça capturada: o veterinário Igor Alexandre Schabib-Péres coloca tampões de algodão nos ouvidos do animal. O cuidado é feito para que os estímulos sonoros não perturbem o animal anestesiado. Foto: André Restel

Localizada em região geográfica estratégica, Corumbá, conhecida como a capital do Pantanal, é delimitada pela planície pantaneira ao Norte e pelo Maciço do Urucum ao Sul. Sua localização privilegiada, em meio ao Pantanal sul-mato-grossense, permite a contemplação da paisagem que atrai milhares de turistas todos os anos. No entanto, o crescimento urbano somado a eventos naturais como a cheia, ou ainda a incidência de queimadas durante a seca, têm causado o aparecimento de visitantes um tanto quanto inesperados na cidade. De acordo com balanço do 15º Batalhão de Polícia Militar Ambiental de Mato Grosso do Sul, de 2009 a 2013, cerca de 270 animais silvestres foram recolhidos na área urbana de Corumbá.

Entre eles estão aves, jacarés, jiboias, sucuris, bugios, gambás, capivaras, onças-pardas e até mesmo espécies ameaçadas de extinção como o tatu-canastra, tamanduá-bandeira e a onça-pintada, o que causa surpresa à população, especialmente aquela que reside ao longo das margens do Rio Paraguai.

Com a ocorrência frequente desses encontros e pela necessidade em aprimorar os resgates de animais em área urbana, o município iniciou em 2010 discussões para a criação do Comitê de Incêndios Florestais e Contenção de Animais Silvestres, incluindo a elaboração de um Plano de Contingência para o resgate dos animais.

O órgão ligado à Fundação de Meio Ambiente do Pantanal, tem como presidente o Major Fabio Santos Coelho Catarineli e é formado por diversas instituições como a Fundação do Meio Ambiente do Pantanal, o Centro de Controle de Zoonoses, Agência Municipal de Trânsito, Embrapa Pantanal, IBAMA, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar Ambiental, Polícia Militar e o Instituto Homem Pantaneiro.

Em coluna recente aqui em ((o))eco, Walfrido Tomás, pesquisador da Embrapa Pantanal, afirmou que Corumbá provavelmente é o único caso de município brasileiro organizado para resgatar grandes felinos em áreas urbanas. Segundo o pesquisador “este Comitê possui um grupo de veterinários e biólogos bastante experientes em capturas de animais silvestres, quase todos com doutorado e participantes de um grupo de excelência em animais silvestres”.

O Comitê, as onças e a cidade

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Onça pintada resgatada saindo da anestesia já na área de soltura. Foto: Comitê de Contenção de Animais Silvestres

Segundo Marina Daibert, bióloga da Fundação de Meio Ambiente do Pantanal, desde que o Comitê foi criado houve a participação dele em três ações de resgate de onças pintadas. A primeira ocorreu em 2013, envolvendo uma onça pintada macho na região do Passo do Lontra (Estrada Parque do Pantanal). O felino estava ferido nas patas traseiras após ter sido, provavelmente, atropelado por uma embarcação. Apesar de ter sido socorrido e encaminhado ao Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), o animal não resistiu aos ferimentos. As outras duas ocorrências foram neste ano. Uma delas aconteceu no Porto Geral de Corumbá, região urbana, envolvendo, dessa vez, uma fêmea com dois filhotes. Os desdobramentos dessa captura não foram de total satisfação devido à morte da mãe, que caiu no rio sob efeito do sedativo e, mesmo sendo retirada rapidamente da água e recebendo todos os cuidados, não sobreviveu. Foi confirmada na necropsia morte por afogamento. No entanto, os filhotes, que são duas fêmeas, foram encaminhados ao CRAS em Campo Grande, sobreviveram e estão saudáveis, extremamente ariscos e agressivos, não tendo perdido características comportamentais importantes para a reintrodução de animais selvagens de sua espécie na natureza. “Mantivemos as duas irmãs juntas em um recinto isolado dos demais e restringimos o contato delas com humanos para que tenham mais chances de serem treinadas e preparadas para voltarem à natureza quando jovens adultas”, afirmou Élson Borges, veterinário e coordenador do local.

A terceira e mais recente captura ocorreu no Forte Junqueira e foi de uma jovem onça pintada fêmea. No final de tarde de terça-feira, 3 de setembro, membros do Comitê, dentre eles dois médicos veterinários da Embrapa Pantanal, Igor Schabib-Péres e Raquel Soares, o biólogo André Restel, da mesma instituição, bombeiros e policiais ambientais, se dirigiam ao local devido a confirmação da Polícia Militar Ambiental (PMA) de que uma onça havia sido pega pela armadilha. Os veterinários anestesiaram o animal e, monitorando os efeitos dos sedativos no organismo dele, a equipe o levou a um barco da PMA para transportá-lo até uma área previamente determinada, afastada da cidade, dentro do Pantanal e segura. Segundo informações da equipe que atendeu à ocorrência, a onça respondeu muito bem aos procedimentos de captura e soltura, sendo a primeira onça-pintada adulta resgatada pelo Comitê a ser solta sem necessidade de permanecer em quarentena, sem ter tido quaisquer ferimentos ou traumas.

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Ao amanhecer, veterinário fotografa o felino já recuperado da anestesia. Animal está livre para partir Pantanal adentro. Foto: Igor Alexandre Schabib-Péres

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Uma das filhotes da onça morta por afogamento. Animal ficará no Centro de Reabilitação de Animais Silvestres até ficar mais velho e poder ser reintroduzido na natureza. Na foto, onça filhote tinha aproximadamente 40 dias de vida. Foto: Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS)

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Os filhotes estão saudáveis e selvagens, aguardando um possível treinamento para reintrodução na natureza. Na foto, já estão com três meses e meio e vida. Foto: Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS)

 

Formação de “resgatadores”

Atualmente 22 pessoas fazem parte do comitê, e todos passaram por uma capacitação para atuarem no resgate de animais silvestres. O treinamento foi ministrado por especialistas de várias instituições como o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros, Embrapa Pantanal, Policia Militar Ambiental, Fundação Oswaldo Cruz e Defesa Civil. A bióloga Marina Daibert, da Fundação de Meio Ambiente do Pantanal, ainda explica que, ao se deparar com um animal silvestre, as pessoas não devem se aproximar do animal. “O aconselhado é entrar em contato imediatamente com qualquer uma das instituições que fazem parte do Comitê, como a Embrapa Pantanal, a Policia Militar, Policia Militar Ambiental, Fundação de Meio Ambiente do Pantanal ou Corpo de Bombeiros”, afirmou Marina.

Uma vez capturados, e em boas condições de saúde, o Comitê realiza a devolução dos animais ao seu habitat natural. “Entretanto, caso necessite de cuidados, o animal é encaminhado ao CRAS”, como explica Walquíria Arruda da Silva, veterinária do Comitê e Chefe do Centro de Controle de Zoonoses de Corumbá.

Caso aviste um animal silvestre em Corumbá, o indicado é ligar para os seguintes serviços:

Policia Militar: 190
Policia Militar Ambiental: (67) 3231-5201
Fundação de Meio Ambiente do Pantanal: (67) 3907-5342
Corpo de Bombeiros: 193

 

Texto: Fátima Seher, Fernanda Athas, Grasiela Porfirio, Natanael Amarilha de Freitas, Thiago da Silva Godoy, Viviane Fonseca Moreira

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