Encontro de Imersão conquista maior integração para a Rede de Ecomunicadores


A Rede de Ecomunicadores do Pantanal e da Serra da Bodoquena se reuniu para três dias de atividades, de 28 a 30 de março em Bonito – MS. É o terceiro encontro que o projeto ParaTudo promove desde dezembro de 2013, com o objetivo formar ecomunicadores locais comprometidos com o meio ambiente e a cidadania. Executado pela Fundação Neotrópica do Brasil em parceria com O Eco, esse projeto se destina aos municípios de Bodoquena, Bonito, Corumbá, Miranda e Porto Murtinho, contando com 88 ecomunicadores. Eles estão em contato por meios virtuais desde então, e agora puderam se conhecer presencialmente, criando vínculos e fortalecendo a rede.

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Participaram do encontro 48 ecomunicadores de 15 a 57 anos, três convidados, três oficineiros de São Paulo e a equipe da Neotrópica. A programação começou com uma oficina que propôs aos ecomunicadores que listassem em tópicos o contexto e características de seus municípios. Essa atividade rendeu cartazes e ricas narrativas, compartilhadas com os demais sobre cada realidade local. Num segundo momento, os ecomunicadores tiveram contato com a forma de funcionamento dos Três Poderes – legislativo, executivo e judiciário – com a explanação da advogada ambiental Ludimilla Barbosa.

Na sequencia, os comunicólogos Gustavo Faleiros, Gisele Brito e Mariana Manfredi falaram sobre como a mídia exerce um Quarto Poder na vida social. “Esse poder só existiu e ainda existe por conta de um monopólio tecnológico. Porque quem detinha as notícias era quem tinha um satélite, quem podia distribuir jornal, ter uma gráfica. Como a gente sabe, tudo isso está desmoronando e essa é a oportunidade histórica de mudar”, apontou Gustavo, se referindo ao poder das pessoas por meio da internet.

Com essas reflexões de pano de fundo, os ecomunicadores questionaram Ludimilla sobre suas dúvidas relacionados ao direito ambiental num exercício de coletiva de imprensa. A entrosação continuou à noite, quando o documentário “Terra das Águas”, de Lu Bigatão foi apreciado na sala de atividades, enquanto outro grupo fez uma roda para cantar e tocar uma diversidade de músicas, inclusive modas de viola.

Na manhã do segundo dia, o parceiro da Neotrópica e coordenador de projetos do site O Eco, Gustavo Faleiros, ministrou uma oficina sobre jornalismo ambiental. Ele falou sobre os principais marcos que levaram as pessoas a repensarem a forma como lidam com os recursos naturais, as complicações desse processo e as possibilidades de coletar dados que explicitam as mudanças nas áreas protegidas. A oficina gerou tanto interesse que continuou a noite, com grande parte dos ecomunicadores reuniudos para conhecer as ferramentas de mapeamento que podem ser utilizadas na geração de notícias.

“A cidade é um meio ambiente. É a natureza transformada”, polemizou a repórter Gisele Brito, da Rede Brasil Atual, na oficina de jornalismo urbano. Ela trouxe relatos sobre sua experiência cobrindo a cidade de São Paulo, fazendo comparações à realidade local e apontamentos sobre como um comunicador pode contribuir para que uma cidade seja mais justa e igualitária.

Gisele deixou como exercício de pós oficina a elaboração de uma notícia pelos ecomunicadores, para que investiguem os benefícios e desvantagens da pavimentação asfáltica, considerando os impactos ambientais e sociais. “É ruim andar na lama e no buraco, portanto é legítimo querer que uma via seja qualificada. Cabe a nós, como comunicadores, apresentar alternativas”, explicou ela. “Por exemplo, temos que pesquisar se foi pensada uma forma de escoar a água. Pra onde que ela vai, foi feito um estudo?”, complementou o ecomunicador e catador de material reciclável de porto Murtinho, Fabiano Sá. Cada município fará uma notícia diferente sobre esse mesmo assunto, a serem entregues para análise e orientações da equipe de Gisele e da Neotrópica.

Atendendo a uma demanda dos ecomunicadores durante as oficinas anteriores a este encontro, duas horas desse dia foram reservadas para que cada núcleo da rede conversar sobre o que está acontecendo em seu município, o que gerou listas dos principais incômodos a serem solucionados e tratados como pauta de notícia. “Faço parte do Conselho do Meio Ambiente e a falta de interesse da população pra discutir políticas públicas é muito grande”, levantou o ecomunicador e policial militar de Miranda, Ronaldo Silva. “A gente convoca e não vêm participar da reunião, depois quando acontece algo atípico no município, eles vêm cobrar do Conselho. Se não tem participação efetiva, como cobrar?”.

A ecomunicadora e coordenadora da juventude de Bodoquena, Elissandra Barreto, trouxe a questão dos resíduos sólidos, problema apontado por todos os municípios presentes. “Temos que trabalhar a sensibilização nas escolas, nos bairros. Nós mesmos, do grupo, podemos sensibilizar.”

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Depois, Mariana Manfredi, do projeto Cala-Boca Já Morreu, fez sua intervenção com a oficina comunicação comunitária e rádio. Ela fez profundos questionamentos sobre as concessões públicas da grande mídia, colocando-a em contraponto com a forma democrática como deve ser feita a comunicação comunitária. “O direito à comunicação é um direito humano, portanto, deve ser praticado por toda pessoa”, afirmou. Ela misturou ecomunicadores de municípios diferentes em pequenos grupos, para criarem programas de rádio ao vivo de dois minutos. Cheios de criatividade, a rede aprendeu, informou, se integrou e se divertiu com a atividade.

O terceiro e último dia contou com uma mesa redonda para tratar da identidade cultural do Mato Grosso do Sul, com a presença da Ronald Rosa, veterinário e ilustrador do canal ZooMoo, e Fernanda Reverdito, guia de turismo e curadora da Casa da Memória Raída. Eles trouxeram elementos da cultura local, como pintura com jenipapo no corpo, trança de couro, mitos, sopa paraguaia, poesia, e por aí fluiu um papo gostoso, com uma grande roda de ecomunicadores contribuindo com seus olhares sobre a miscigenação cultural da região, considerando sua história e tantas fronteiras.

Caminhando para o fim do encontro, os ecomunicadores compartilharam um pouco sobre os processos de construção de suas primeiras notícias, o que levou a novas orientações e combinados. A superintendente da Neotrópica, Gláucia Seixas, finalizou agradecendo a presença de todos e dizendo “É gratificante ver o grupo, pouco a pouco, se fortalecer em direção a troca de experiências e a busca de soluções para as questões ambientais de seus municípios de forma colaborativa e participativa”. Thalita Caldas, ecomunicadora e estudante de Corumbá, comentou “Fiz novos amigos, estou muito feliz pela oportunidade de conhecer jovens que pensam como eu”, dentre outras colocações satisfeitas. “Volto para casa com a sensação que estamos caminhando para uma rede, de diferentes instâncias, engajada e comprometida”, Marilizi Oliveira, ecomunicadora e diretora da Secretaria de Meio Ambiente de Bonito.

IMG_1603Veja mais fotos aqui. Confira os materiais utilizados para as atividades do encontro aqui.

O projeto ParaTudo – Rede de Ecomunicadores do Pantanal e da Serra da Bodoquena é uma iniciativa da Fundação Neotrópica do Brasil em parceria com o site de jornalismo ambiental O Eco, patrocinada pelo Comitê Holandês da União Internacional para a Conservação da Natureza e Recursos Naturais e pela Secretaria do Consumidor, do Ministério da Justiça. As prefeituras dos municípios que integram essa rede apoiaram o evento com o transporte.

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